Nem todo alívio ajuda
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Benzodiazepínicos e seus efeitos na memória e na evolução do trauma
Durante uma situação traumática é relativamente comum que sejam oferecidos benzodiazepínicos como clonazepam, diazepam ou alprazolam. No geral, a intenção é boa. Acalmar alguém que está diante de um momento de choque, estresse intenso, tristeza ou ansiedade. No entanto, essa prática não pode ser banalizada. As consequências do uso precoce dessas medicações, especialmente logo após o trauma, vêm sendo cada vez mais discutidas, principalmente pelo seu possível impacto na forma como a experiência é registrada pelo cérebro e elaborada ao longo do tempo.
Para entender esse ponto, é importante olhar brevemente para como o cérebro processa uma experiência traumática. Estruturas como a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal participam da consolidação da memória emocional. A amígdala está relacionada à detecção de ameaça e à ativação de respostas emocionais intensas. O hipocampo contribui para a organização do contexto da experiência, permitindo diferenciar passado e presente. Já o córtex pré-frontal atua na regulação dessas respostas, favorecendo interpretações mais elaboradas. Em termos mais simples, a amígdala funciona como um alarme que dispara diante do perigo, o hipocampo ajuda a organizar “onde e quando isso aconteceu” e o córtex contribui para reconhecer que “isso já passou”. Quando esse sistema opera de forma integrada, a experiência tende a ser processada de maneira mais adaptativa (Shalev et al., 2019).
Os benzodiazepínicos atuam aumentando o efeito do GABA, um neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, responsável por reduzir a atividade cerebral e promover relaxamento e sedação. Esse efeito pode ser útil em situações de sofrimento intenso. No entanto, há evidências de que, quando utilizados logo após o trauma, podem interferir em processos importantes como a consolidação da memória e a aprendizagem emocional. Parte da preocupação está na possibilidade de dificultar a organização da experiência de forma adaptativa. Isso não significa que esses medicamentos sejam contraindicados em todos os casos. Em situações específicas, podem ser indicados de forma criteriosa e por tempo limitado. O ponto de atenção está no uso indiscriminado. Estudos apontam associação entre benzodiazepínicos e piores desfechos em sintomas pós-traumáticos, além de menor resposta a intervenções psicoterápicas baseadas em exposição (Guina et al., 2015; Guina & Merrill, 2018).
Diretrizes clínicas reforçam esse cuidado. O National Institute for Health and Care Excellence não recomenda benzodiazepínicos como tratamento de primeira linha para transtorno de estresse pós-traumático (NICE, 2018). Da mesma forma, a American Psychiatric Association orienta a priorização de intervenções psicoterápicas baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental (APA, 2023).
Outro ponto importante envolve as intervenções psicológicas precoces. Durante muito tempo, acreditou-se que incentivar o relato detalhado do evento logo após o trauma ajudaria na prevenção de sintomas posteriores. Hoje se sabe que isso precisa ser feito com cautela. Quando a exposição é forçada ou ocorre antes de a pessoa ter recursos emocionais para lidar com o que viveu, pode intensificar o sofrimento. Em termos mais simples, é como quando alguém tenta ajudar pedindo que a pessoa conte exatamente tudo o que aconteceu logo após o evento, mesmo ainda em estado de choque. Em vez de organizar a experiência, isso pode reforçar a sensação de desamparo. As evidências indicam que o debriefing psicológico universal não reduz a incidência de transtorno de estresse pós-traumático e pode, em alguns casos, ser prejudicial (Roberts et al., 2019).
Diante disso, o cuidado após um trauma tende a ser mais simples do que parece, embora nem sempre seja fácil de sustentar. Oferecer segurança e acolhimento. Evitar pressionar a pessoa a falar antes do tempo. Explicar que reações como insônia, irritabilidade, medo e pensamentos intrusivos podem surgir nos primeiros dias. Ajudar a manter uma rotina mínima e orientar familiares a estarem presentes sem invadir. E, principalmente, acompanhar a evolução dos sintomas, indicando ajuda especializada quando eles persistem ou passam a comprometer a vida cotidiana.
Nesse contexto, a psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, tem um papel central. A TCC auxilia o paciente a compreender como pensamentos, emoções e comportamentos se organizam após o trauma, trabalhando a identificação de interpretações disfuncionais, a redução de esquiva e o processamento gradual da memória traumática. Diferente de uma exposição precoce e desorganizada, o trabalho é conduzido com preparo, ritmo e estratégias de regulação emocional. Além disso, oferece ferramentas práticas para lidar com a ansiedade, melhorar o sono e retomar atividades do dia a dia.
Assim, mais do que eliminar rapidamente o sofrimento, o cuidado em situações traumáticas envolve criar condições para que ele possa ser compreendido e elaborado. A medicação pode ter seu lugar quando bem indicada, mas não substitui esse processo. Buscar psicoterapia não é prolongar a dor, mas permitir que ela seja integrada de forma mais segura, reduzindo o risco de manutenção dos sintomas ao longo do tempo e favorecendo uma recuperação mais consistente.